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segunda-feira, 9 de maio de 2011

A LENDA DO PRIMEIRO GAÚCHO

LESSA, Barbosa. A LENDA DO PRIMEIRO GAÚCHO - in: Estórias e Lendas do Rio Grande do Sul. São Paulo: Livraria Literart Editora, 1960.

Século XVIII. Uma partida de brasileiros atravessa as verdejantes campinas do Rio Grande do Sul. Impulsionados pela necessidade de braços para as lavouras, buscam o índio. Hão de avassalar as tribos ocupantes daquela região. Com esta disposição, viajam bem municiados e armados. Os índios Minuano, avisados pelas sentinelas, da aproximação dos brancos, montam em seus fogosos cavalos e, armados de flechas e boleadeiras e lanças,
deixam seu acampamento e rumam para as coxilhas. Ao avistar os brasileiros se aproximando, os índios usam de sua tática de ocultar-se ao longo de dorso dos cavalos. Destarte, dificilmente saíram descobertos pelos inimigos. Imóveis, esperam eles o momento azado para atirar-se sobre os viajantes. Os brasileiros não são conhecedores dos hábitos e da tática empregada pelos índios habitantes das campinas do Sul. E avistando à distância o bando de cavalos pastando, tomam essa direção, muito senhores de si. Assim, ao se aproximarem os brasileiros, os índios despencam-se nos seus animais do cimo das coxilhas, em galopada, investindo contra os brancos com furiosas saraivadas de flechas.
Respondem estes com tiros de armas de fogo. Nova investida dos índios, agora servindo-se das lanças, obriga os invasores a fugir em desordem. Caído por terra acha-se um moço ferido; a seu lado, uma jovem índia minuana. Fascinara-a a coragem do estrangeiro. O brasileiro sabe da sorte que o espera. E, interrogando a moça quando será sacrificado, responde-lhe esta que nada tema, pois estará a seu lado. Anima-o com palavras confortadoras, cheias de simpatia e compaixão pela sorte do estrangeiro. O prisioneiro é levado para o acampamento dos Minuanos. Enquanto esperam que se cure da ferida para sacrificá-lo, lhe dão toda a liberdade sob a vigilância das sentinelas. O jovem branco resolve fazer uma viola. Uma tarde, à sombra de uma árvore, com a pouca ferramenta de que dispõe, a muito custo vai improvisando um rústico instrumento. Inicialmente aparelha, em forma de espessa tábua, um pau de corticeira. Cava-o, dando-lhe a forma de viola. Coloca uma tampa com abertura circular para dar vibração ao som das cordas. Para colar a tampa, emprega o grude da parasita sombaré, das árvores da serra. E da própria fibra da parasita ele prepara as cordas para o instrumento. A índia já lhe tem muita amizade e está sempre a seu lado nas horas de folga. Enquanto lhe vê trabalhar, canta-lhe suavemente um canto doce e pitoresco da gente minuana. Ainda não passara um alua e já, na grande ocara do acampamento, celebra-se o ritual do sacrifício. Amarrado a um tronco está o prisioneiro. Todos os índios da nação, reunidos em volta dele, dançam e cantam sua morte. De quando em vez passam, de mão em mão, cuias contendo delicioso vinho, fabricado com o mel eiratim. Há um silêncio de morte em todo o acampamento. O chefe minuano ordena que soltem o prisioneiro e tragam-no a sua presença. Fitando o moço bem nos olhos, assim fala o cacique: - que aos teus irmãos sirva de lição esta última derrota. Ou não nos tornem vir a nos incomodar. Os que vierem nestes campos buscar escravos, hão de ser esmagados pelas patas de nossos cavalos. E tu pagarás com a morte a tua audácia e a dos teus! Contudo, o chefe Minuano diz ao condenado que faça o seu último pedido. Surpreende-se o branco com tal gesto. E, dotado de uma inteligência não vulgar, num relance percebe como poderá livrar-se da morte. Sabendo da emotividade e a influência que exerce a música sobre aquelas criaturas, pede que lhe tragam o seu instrumento de cordas. Quer tocar pela última vez; cantar uma balada de sua terra. É a jovem índia quem lhe traz a sua viola, debaixo dos olhares curiosos dos índios. Cheio de fé, o moço pega da viola. Depois de alguns sonoros acordes, entoa uma canção. E o rito bárbaro daquelas fisionomias rudes transforma-se como por encanto. Ouvem-se com enlevo, exclamando a todo instante: - Gaú-che! Gau-che! – a significar gente que canta triste. Sensibilizados pela doce cantiga do condenado á morte, os índios intercedem para que o sacrifício seja revogado. E, assim, o brasileiro fica morando com os Minuanos. Enamorado da jovem índia, casa-se com ela. E dessa bela união, do elemento branco com o indígena, resultou o tipo desse homem extraordinário que se chama gaúcho!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

MONJOLO, RIACHO PARCEIRO NA INFÂNCIA

Monjolo, riacho de muita pescaria e de peixe assado no "espeto" feito de um galho de árvore qualquer. Lugar de muito banho pelado e concurso de "bico" no "poção". Nos arredores, pés de ariticum da "Horihj Cred" tomados de assalto e lavouras de melancia sendo aliviadas pela gurizada. Ah! E tinha a corrida em casca de coqueiro morro abaixo. Tipo corrida de rolimã sem roda. Cosa de loco. Sorte que ainda não existia TV e um ato de violência era tão raro que era o único à ser contado durante anos. É claro que a surra que a gente levava quando chegava em casa, pelas traquinagens e todo sujo e esgualepado, não conta.



Intérprete: Wilson Paim - Letra: do Santocristense José Luiz Casarin

Música vencedora da 3ª Grande Quarteada do Hotel Fazenda Três Lajeados - Santo Cristo - RS

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Jayme Caetano Braun , el payador

Payador, poeta e radialista, Jayme Caetano Braun nasceu na Timbaúva (hoje Bossoroca, na época distrito de São Luiz Gonzaga, na Região das Missões no Rio Grande do Sul), em 30 de janeiro de 1924, e faleceu em Porto Alegre no dia 8 de julho de 1999.

Lançou diversos livros de poesias, como Galpão de Estância (1954), De fogão em fogão (1958), Potreiro de Guaxos (1965), Bota de Garrão (1966), Brasil Grande do Sul (1966), Passagens Perdidas (1966) e Pendão Farrapo (1978), alusivo à Revolução Farroupilha. Em 1990 lança Payador e Troveiro, e seis anos depois a antologia poética 50 Anos de Poesia, sua ultima obra escrita.

Publicou ainda um dicionário de regionalismos, Vocabulário Pampeano - Pátria, Fogões e Legendas, lançado em 1987.

Jaime também gravou CDs e discos, como Payador, Pampa, Guitarra, antológica obra em parceria com Noel Guarany. Sua ultima obra lançada em vida foi o disco Poemas Gaúchos, com sucessos como Payada da Saudade, Piazedo, Remorsos de Castrador, Cemitério de Campanha e Galo de Rinha.

Gravou, ainda, com Lúcio Yanel, Cenair Maicá e Luiz Marenco.

Entre seus poemas mais declamados pelos poetas regionalistas do país inteiro, destacam-se Bochincho, Tio Anastácio, Amargo, Paraíso Perdido, Payada a Mário Quintana e Galo de Rinha.

Para ler biografia mais completa, acesse:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jaime_Caetano_Braun

Devagarito vamos publicando os vídeos com as suas músicas e declamações. Pra quem está com pressa, disponibilizamos o site
http://letras.terra.com.br/jayme-caetano-braun, com 39 poesias, com letras e músicas, em alguns casos, disponíveis. Tem alguns probleminhas, como vídeos disponibilizados na página de outra letra. Esperamos poder corrigir isto quando lançarmos os mesmos aqui no nosso Blog.
Hoje, publicaremos dois poemas: Galpão Nativo e O Tempo.




domingo, 1 de maio de 2011

Literatura Gaúcha - Milonga triste para Adão Latorre

Autor: Conto de Jaime Vaz Brasil

Retirado do site:
http://www.bombachalarga.org/ver_literatura.php?id=23

Na mangueira de pedra, trezentos de nós à espera do sumário julgamento. Eu, cansado de tanta correria e de tanta luta, sentei num canto, aguardando não sei bem o quê. Os boatos eram outra cerca que nos cingia o peito. Falavam que talvez alguns de nós viessem a ser degolados, como resposta à morte dos sobrinhos do Tavares. Não vou mentir. Bateu um medo, sim senhor. Mas um medo diluído por muitas e muitas cabeças. Por certo não nos matariam a todos. Quem sabe, para causar impressão forte, até degolassem meia dúzia de nós, isso sim. Para impressionar e dar o troco. As coisas iriam terminar bem. Nos entregamos com garantia de vida, ao comando do nosso Coronel Maneco Pedroso, um taura beirando os trinta e picos, criatura de alma larga e cabeça pensante. No ar da fronte, em nós todos um misto de tristeza e alívio. Nesses momentos de peso e silêncio, a gente se lembra das coisas que tem. O que tenho pode ser pouco, mas nunca me faltou comida porque força não me faltou no braço. Tenho um cavalo que me acompanha de há muito e quase me adivinha as vontades. E tenho muita lembrança ajuntada nestes mais de cinqüenta anos de vida bem vivida. Mas agora estou aqui, sentado a um canto, apoiando os costados na pedra, esperando não sei bem o quê. Quem sabe alguma que outra ameaça, alguns dez ou doze de nós pagando com a vida para selar a vitória deles. Não é difícil entender a coisa toda. O respeito há que ficar marcado. Na minha escassa sabença de homem criado no campo, que não aqueceu banco de colégio, o tal respeito é afilhado do medo. Sim senhor. No fundo, é tudo muito parecido. E medo se forja é no sangue, não com pose nem falação bonita. No meu caso, a história começou num mate desses de se tomar enquanto a sombra da tarde se alonga até bater os costados no horizonte. Foi quando eles me apareceram. Dois homens de boa estampa, cara limpa e vestidos a preceito. Logo se via que era gente importante, gente de algum estudo. Aprendi bastante naquela conversa. Soube da tal rusga dos republicanos e federalistas, coisa que primeiro ouvi do meu velho pai, quando me contava de suas façanhas de outros tempos. Pra ser sincero, nunca entendi direito essa diferença. Gostava era de ouvir o pai contando coisas da guerra. Era guri, e guri gosta de ouvir sobre tiro e talho de adaga. Mas a parte que me ficou sombreada, como até hoje, sim senhor, foi essa tal diferença. Sei que os republicanos são gente do governo. E governo é governo, merece respeito. Por isso foi fácil escolher o lado. Sou republicano por que sou pelo governo, sou pela justeza e pela ordem das coisas. Imagino com satisfação que daqui há um par de anos vou estar mateando na mesma sombra e haverá de estar ali algum neto de olho arregalado a me perguntar das degolas, da revolução de noventa e três e deste cercado de pedra. Até agora, não matei ninguém. Em compensação, ninguém me matou. Há este empate na minha guerra particular por enquanto. Nem culo, nem suerte. Agora estou aqui, sentado e esperando pelos fatos. Dos que estão comigo, conheço uns poucos, mas nenhum deles posso considerar, por assim dizer, um amigo, desses de desencilhar o cavalo na visita. Sei que é gente buena, gente do governo como eu, pronta para ajudar na ordenação das coisas. Um desses meus conhecidos se agachou ao meu lado, me tapeou o ombro e disse que não era pra eu me achicar. Mal respondi ao sujeito. Poderia ter dito que não estava com medo, que estava era cansado e rejuntando forças. Mas não. Não estava pra conversa fiada. Olhei ao redor e imaginei que talvez uns quinze ou vinte de nós pudessem passar por alguma provação. Ainda assim, a maior chance era de escapar com vida e sair contando vantagem. Alguns de nós riam baixinho, não sei de quê. Outros engoliam um choro seco, escondido no canto do olho. Os inimigos nos rodeavam, do lado de fora do cercado. Olhei as pedras, graúdas e pesadas. Imaginei quanto suor não teria escorrido por aqueles sulcos, do corpo de negros cansados sem reclamar de nada, agüentando com um silêncio remoído por dentro. Na minha frente, também sentado, um negrote novo. Pensei, não sei porque cargas d'água, que talvez o pai dele pudesse ter trabalhado ali, naquele mangueirão, no pedra sobre pedra que agora servia de brete ao próprio filho. E os inimigos nos rondavam, e às vezes diziam coisas pra nos por medo e se divertiam com essas ameaças e gritedos. Gente de pouco tino, gente de anarquia. Eu ali, no comportamento que mais convém a um prisioneiro. Inclusive essa tal palavra me ficou passeando pela idéia depois da batalha perdida, das armas na terra e da vergonheira estampada. Um capitão deles disse que deviam ser mais de trezentos os prisioneiros. De cima das pedras, um sujeito começou a mijar sobre nós. Riu muito e um outro deu-lhe um empurrão, disse que isso não era coisa que se fizesse, e quase se peitaram. Ficaram se estranhando, mas briga não saiu e a situação se resolveu pouco depois com um ou dois tragos. E eu firme no meu posto, querendo pensar na vida e ordenar meu tino. Na pior das hipóteses, uns vinte ou trinta de nós poderiam se ver feio de vida, experimentando o tironaço da gravata colorada a separar o couro do pescoço. No máximo uns quarenta, pra causar grande impacto. Cadeia pra todos não haveria, ainda mais pra gente do governo como nós. Um silêncio esquisito nos caiu como pedra quando vimos a cara feia do negro Adão Latorre a nos mirar de cima. Ficou um pouco ali, nos olhando agudo e manso, a buscar quem sabe algum conhecido. Ar sereno, sorriso miúdo espremido na boca, tigre com fome encarando a presa. Alguns de nós o buscavam no olho, mas a maioria não. Não era uma coisa interessante o risco de cair em desgraça com o negro. Eu, alcei o olho e desviei em seguida. Só não entendi bem por qual razão me levantei logo. Não sei o motivo, mas sei que não queria ser visto sentado no chão. Ficamos meio esperando que ele dissesse alguma coisa, que trouxesse as novidades decididas pelos grandes. Talvez estivesse escolhendo, dentre nós, uns cinqüenta que pagariam com a vida a morte dos Tavares. No entusiasmo, quem sabe uns setenta para exercitar a conhecida manobra horizontal da adaga uruguaia de bom corte. Desceu das pedras devagar, medindo passo por passo, com a calma de quem não tem relógio nem patrão. Aquele riso dele me deixou sestroso. O que estaria pensando o negro? Tentei apurar a orelha, cheguei a identificar a sua fala acastelhanada mas não pude perceber o que dizia, por causa dos cochichos que se formaram logo ao meu lado. Cruzando a frente da mangueira, pude ver o negro carregando duas facas e uma chaira. Não posso negar, não senhor, aquela foi uma hora difícil. Vi o tranco satisfeito dele, o olho atravessado na diagonal das facas. Um pressentimento esquisito de que, quem sabe, a coisa fosse mesmo o pescoço de uns oitenta de nós. Quem sabe até mesmo uns cem, pra que os outros saíssem alardeando o pavor que é se meter em matanças desse tipo e fossem cuidar das vacas e da plantação. Decerto seríamos libertados com a condição de não dizer nada a ninguém do que havíamos presenciado ali. Esse era o melhor jeito pra que todos ficassem sabendo da coisa, com todos os exageros que convém às duas partes. Era pra que assim se fizesse, a lei da guerra é a lei do sangue. Sim senhor. Isso todo mundo sabia, ninguém ali era santo. Senti a chance se apequenando, a emagrecer como cusco sem dono em tempos de seca. Medo, sim senhor. Mas desespero não. Morte por morte, um dia a gente morre mesmo. Sim senhor, disso não há vivente que escape. E já que se morre, que seja então com um bom quando e porquê. Numa dessas, abriram o mangueirão. Dois homens a cavalo se postaram na frente, um deles ergueu o laço e arremessou contra nós, os prisioneiros. Foi laçado um, que não era dos meus conhecidos, e arrastado devagar, com uma certa cerimônia. Ele, quieto. Não deu nem um pio nem um ai. Uns poucos de nós foram buscando o fundo do mangueirão despacito, como quem não quer nada. Fiquei no ponto onde me achava, dali a visão era boa do que estava por vir e não me deixava muito a mercê do laço. Pude ver o negro Adão fazer um sinal de apura com isso para o do cavalo, que foi a trote até o palanque. Senti meu coração disparando, como se fosse eu lá, posto de joelhos, com as mãos atadas pra trás com uma soga. O negro afiando as facas e mirando o ajoelhado. Deixou uma delas por cima dos arreios e se aproximou rindo e mirando. Estás pronto para morrer, hijo? O prisioneiro não respondeu. Devia estar rezando. Eu, pelo menos, tentava. E isso que não sou muito de igreja. Mas, no apuro, fiz até uma promessa, de que se me escapasse vivo, aprenderia de novo aquelas rezas que minha velha mãe tentou me ensinar, muito tempo atrás. Quando ergui a fronte, dei com o negro Adão agarrando pelos cabelos um infeliz ajoelhado, forçando a cabeça do bicho pra trás. O joelho do negro nas costas do homem, o talho de orelha a orelha pela frente, o sangue aos jorros, um grito pela metade. Grito molhado pela sangueira, uma coisa muito feia de se ver e de se ouvir. Sim senhor. Não há como haver esquecido. Caiu ali mesmo, a cara direto no chão, semente pesada a se enterrar ligeira no barro avermelhado. Latorre passou a lâmina bem devagar no tirador de couro e olhou-a, satisfeito. Faquita buena, esta. Foi o que pude ouvir dele, enquanto os de a cavalo arrastavam o corpo até uma lagoa, a uns vinte metros dali. Poucos de nós atinaram contar, como eu. Senti que seria importante saber o tamanho certo da maldade, pra contar depois com a justeza dos números quantos de nós morreriam ali. Mas não nego que fui me apavorando pouco a pouco. Acho que não é vergonha admitir isso, não senhor. Só quem viu de perto, só quem sentiu o cheiro vermelho de tanto sangue avalia o que seja. Nem todos sabiam morrer. Alguns imploravam pela vida, alegavam ter família e coisas assim. E o negro Adão dizia que feio meu hijo, ser covarde desse jeito não presta, não é assim que se morre. Outros chegavam lá e xingavam feio o negro, e morriam do mesmo jeito. Acho que alguns tentavam um olhar de piedade, mas não sei não senhor, porque não vi. Logo em seguida as degolações se aligeiraram, Latorre já estava com prática e os de a cavalo já ganhavam ciência no carregar do infeliz. De tempo em tempo, um intervalo, um trago largo e a chaira fazendo cruz de ida e volta nas adagas, que trabalhavam em rodízio de uns dez serviços para cada uma. Mesmo resolvido a contar, perdi meus números ao redor dos noventa e picos. Nessa altura, eu só pensava se sairia vivo ou não. Minhas vistas ardiam e pesavam ante as honrarias da gravata colorada. Não vou negar, não senhor, já disse antes. Passa pela cabeça da gente um monte de coisa numa hora dessa. Uma vontade de fazer fiasco, de sair correndo como guri assustado. Mas guri é guri e homem é homem. Hora de morrer é hora de morrer e está feito. A partir de uma certa altura, poucos de nós aceitavam ir arrastados pelo laço, feito animal. O primeiro de nós que disse homem morre é de pé, foi caminhando até o negro e ganhou com isso o direito de erguer o pescoço na frente dele. Outros o seguiram, e parece que os olhos do negro se enchiam de satisfação com atos desse tipo. Alguns poucos se desesperavam numa inútil tentativa de fuga, eram perseguidos com prazer pelos de a cavalo, vinham arrastados de volta, ficavam um tempo assistindo de perto a morte de uma meia dúzia e só depois eram degolados, sem pressa nenhuma. Isso enlouquecia até o olho mais afeito a matanças. Morriam de todo jeito, e sofrendo esse bocadito a mais. Diz a lenda que teria escapado um que outro de nós, uns poucos que olharam o negro de um jeito que tocou nos moles do coração dele. Mas isso eu não sei, não senhor. Só posso falar o que vi, que assim não periga a verdade. E o que vi foi até a minha hora chegar. Pois que me fui, caminhando aos trancos, como quem se despede, procurando sentir bem a terra que me dava base aos pés. Pensei comigo se valia a pena gritar alguma coisa pro negro. Olhei pra o lado e pude ver a montoeira de corpos na água vermelha da lagoa. Nunca vi coisa igual, não senhor. Era mesmo de se perder a conta. Quanta judiaria. Olhei na fundeza dos olhos dele. Resolvi não dizer nada. Não dizer degola negro filho da puta, assassino, te diverte desgraçado. Fiquei quieto, afoguei o grito e pude imaginar meu sangue correndo pela mão suja do negro. Lembro que ergui a cabeça e o pescoço ficou ali, pedindo o serviço. O negro não me olhou de novo. Já cansado, o braço endurecido de tanta prestança. Só lembro mesmo dos meus olhos se inchando, como a querer saltar da cara, e uma sensação de calor me enchendo a cabeça e um frio escorrendo e se espalhando pelo corpo. Depois uma enorme tontura e o azul lá de cima escurecendo ligeiro...